Sentada no chão está uma menina, que segura em sua mão um lápis. Em sua frente uma superfície plana, porém não tão suave quanto necessário, mas que já era o suficiente pra ser sua voz, sua expressão. Nada a fazia mais feliz do que ver a forma concreta de seus sentimentos. Era como se seu coração e sua mente não coubessem naquele pequeno corpo e precisassem encontrar uma saída através de uma onda de criatividade. Ela nunca tinha frequentado uma sala de aula ainda, era muito pequena, mas segurar um lápis pareceia algo tão familiar, quase institivo. Naquele fim de manhã a casa estava agitada, afinal de contas era dia de faxina. A menina olha constantemente para o alto, na esperança de que alguém reparasse seus criativos desenhos.
-Alguém dá um papel pra essa menina! Disse uma de suas tias, passando apressadamente para a cozinha.
No fundo as várias vozes femininas se confundiam com o som do rádio. A luz do Sol entrava pela janela indicando que a qualquer momento sua mãe a chamaria pra almoçar.
-Ih! Lúcia é chata! Lina, Já falei pra você parar de escrever na parede! Sua mãe a repreende, sem que isso a faça parar o que estava fazendo, deixando para trás os afrescos de uma artista que ainda não sabia que precisava ser compreendida.
-Vai ver vai querer ser alguma coisa que envolva caneta! Uma voz ecoa da cozinha com tom de riso.
-Eu vou ser escritora! Diz a menina enquanto continua seus rabiscos na parede.
-E quer dizer que vai ter escritora na família agora? Só faltava isso! — disse Lúcia, soltando uma risada. A palavra bastarda naquela casa carregava mais peso do que aquela pequena menina poderia compreender.
A menina baixou a cabeça e mesmo sem saber acabara de aprender uma das grandes lições da vida: as pessoas podem não
acreditar em você. Talvez, nem mesmo quem você ama!
No fundo ela guardou aquelas palavras para si. Sem saber, naquele instante, fez um pacto consigo mesma:
-Vou mostrar à elas!
